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Homenagem

A memória das palavras

TRT da 19ª Região e IHGAL propõem a criação de memorial e biblioteca homenagendo Aurélio Buarque de Holanda

Aurélio Buarque de Holanda e Jorge Amado
Aurélio Buarque de Holanda e Jorge Amado
"Desculpe, Aurélio, mas este verbete não deveria constar no seu dicionário: Adeus. [de a-3 + Deus] 1. Emprega-se como cumprimento, em sinal de despedida, e significa Deus acompanhe! [sin.(fam.): adeusinho] ...Dizer adeus ao mundo. V. Morrer". Estas palavras fazem parte de uma peça publicitária da Fundação Nestlé de Cultura, publicada em 18 de março de 1989, na revista Manchete, em homenagem ao alagoano Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, 19 dias após a sua morte, em 28 de fevereiro de 1989. Uma bela e justa homenagem de uma multinacional a um brasileiro, alagoano, crítico literário, lexicógrafo (técnica de redação e feitura de dicionários), filólogo, professor, tradutor e ensaísta.

A Nestlé, além de referenciar o alagoano, apostou no marketing de associar o nome da empresa ao grande homem Aurélio Buarque de Holanda, considerado culto, ético e honesto. A sua grande obra, o Dicionário Aurélio, é a maior referência da Língua Portuguesa, com mais de 60 milhões de unidades vendidas em todo o País. E nós, alagoanos, quando faremos jus ao nosso ilustre conterrâneo?

Ainda bem que, no dicionário de Aurélio, consta a palavra reparar, que significa remediar, corrigir, emendar: "Procuraremos reparar os erros anteriores". Para rever esse esquecimento histórico, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 19ª Região teve a iniciativa de apresentar um projeto para a instalação do Memorial Aurélio Buarque de Holanda Ferreira ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e ao Ministério da Cultura (Minc). O projeto do memorial, orçado em R$ 200 mil, será instalado no mesmo andar onde está localizado o Memorial Pontes de Miranda.

O Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL) também sonha em criar uma biblioteca Aurélio Buarque de Holanda na sede do Sindicato dos Empregados no Comércio do Estado de Alagoas e na Escola Técnica do Comércio, antiga Sociedade Perseverança e Auxílio dos Empregados do Comércio de Maceió.

São duas propostas: uma do TRT - de instalação do memorial - e a outra do IHGAL, de implantação de uma biblioteca. Ambas não se conflitam, pois lutam pela memória cultural do Estado. No entanto, as duas instituições já sabem, de antemão, que vão correr contra o tempo, pois, em 2010, é comemorado o centenário do alagoano, que nasceu em Passo do Camaragibe, em 3 de maio de 1910, com a missão de dar sentido às palavras nossas de cada dia.

Memorial Aurélio Buarque
Projeto do Memorial Aurélio Buarque de Holanda - do TRT -, orçado em R$ 200 mil
Projeto do Memorial Aurélio Buarque de Holanda - do TRT -, orçado em R$ 200 mil
O prédio do TRT, desde 1994, ganhou o Memorial Pontes de Miranda, onde são divulgadas a vida e a obra do jurista Pontes de Miranda e realizado o levantamento da história da Justiça do Trabalho no Estado de Alagoas. Desde a sua criação, cerca de 142 mil pessoas (estudantes, turistas e o público em geral) visitaram o memorial. Em 2008, o desembargador federal e presidente do TRT, Jorge Bastos Nova Moreira, foi ao Rio de Janeiro apresentar a proposta do memorial do mestre Aurélio à viúva Marina Baird Ferreira, que aprovou a ideia, concordando em doar parte do valioso acervo do dicionarista.

"O gesto nobre da senhora Marina contribuirá significativamente para a memória alagoana e completa ações que o TRT de Alagoas e o Estado vêm empreendendo na preservação da memória não só dos ilustres filhos do Estado, mas também da nação brasileira. A escolha pelo TRT de Alagoas se deve ao fato da credibilidade que a viúva e o Estado depositam ao trabalho permanente de resgate da memória desenvolvido pela Corte Trabalhista", disse o desembargador Jorge Nova, um baiano engajado em valorizar a memória cultural do Estado.

O projeto do Memorial Aurélio Buarque ocupará um espaço de 90m² ao lado do Pontes de Miranda. A ação prevê a implantação do memorial e dos seus diversos segmentos: arquitetônico, museográfico, historiográfico e conservativo, mantendo o padrão já conhecido das instalações atuais do Museu da Justiça do Trabalho.

Atualmente, o projeto - no valor R$ 200 mil - foi encaminhado ao BNDES e ao Minc, além de estar inscrito na Lei Rouanet, que prevê incentivos a empresas e indivíduos que desejem financiar projetos culturais. O TRT busca parcerias com empresas privadas interessadas em apostar na preservação da memória cultural de Aurélio Buarque de Holanda para as futuras gerações.

Proposta do IHGAL é criar biblioteca do mestre
Há cerca de dois anos, os sócios do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL) lutam para que o prédio vizinho, sede do Sindicato dos Empregados do Comércio do Estado e da Escola Técnica do Comércio, seja tombado e desapropriado pelo governo do Estado para ser transformado na futura Biblioteca Aurélio Buarque de Holanda.

O médico e sócio do IHGAL Fernando Gomes lembra que, na época em que era estudante de Medicina, observava alguns encontros do mestre Aurélio na casa da artista e colecionadora de arte popular Tânia de Maya Pedrosa. "Alagoas tem que ser a salvaguarda do acervo do Aurélio Buarque de Holanda porque ele não é apenas um dicionarista, foi um tradutor fantástico, um homem das palavras. Na biblioteca do mestre Aurélio há mais de sete mil livros com anotações do próprio alagoano; um acervo de grande valor histórico para a Língua Portuguesa", destaca Fernando Gama.

Ainda segundo o sócio do IHGAL, este ano, o Conselho Estadual de Cultura aprovou o tombamento do casarão que abrigou a Sociedade Perseverança e encaminhou o pedido de desapropriação do prédio.

"Agora aguardamos uma reposta do governo ao nosso pleito ou até mesmo de uma empresa privada que deseje investir na preservação do prédio histórico, datado do final do Século 19, e fazer jus à memória cultural de Aurélio. Precisamos correr contra o tempo porque, no próximo ano, festejaremos o centenário do Aurélio e o prédio da Sociedade Perseverança está se deteriorando cada vez mais. Sabemos que uma construtora tem interesse em adquirir a área e derrubar o prédio", conta.

Para o médico Fernando Gomes, o instituto - com 141 anos - é uma instituição séria. "O IHGAL é o terceiro mais antigo do Brasil, mantido por 50 sócios, além de ser o ambiente ideal para receber o acervo do Aurélio por ele ser apaixonado por Alagoas".

O historiador, bibliotecário e presidente do IHGAL, Jayme Lustosa de Altavila, ressalta que a instalação da Biblioteca Aurélio Buarque de Holanda no prédio do Sindicato dos Empregados do Comércio do Estado também será benéfica para os mais de 16 mil volumes do instituto, dos quais cerca de seis mil são raros. "A biblioteca tem quer ser central, num local acessível; um espaço para pesquisa e com sala de leitura. Esse projeto é muito importante para o Estado porque, infelizmente, Alagoas não cultiva a memória cultural dos seus filhos ilustres", diz o presidente do IHGAL.

Aurélio Buarque: apaixonado por Alagoas
Aurélio Buarque de Holanda era apaixonado por sua terra natal. Mesmo morando no Rio de Janeiro desde 1938, as suas férias eram sagradas na capital alagoana, em vários pontos da cidade: nas praias da Sereia e da Pajuçara, nas lagoas e no Café Central, sempre cercado por amigos, como Graciliano Ramos, Jorge de Lima, Arnoldo Jambo, Bráulio Leite, Ledo Ivo, Emer Vasconcelos, Carlos Moliterno, Napoleão Moreira e tantos outros nomes da literatura. As melhores lembranças estão guardadas com a viúva de Napoleão, a artista plástica e colecionadora de arte popular Tânia Maya Pedrosa.

São pastas e mais pastas com fotos, revistas, recortes, além das lembranças vivas que Tânia Maya guarda sobre Aurélio Buarque e Marina Baird Ferreira. "Aurélio sempre foi uma pessoa esforçada, de família modesta; comprou o seu primeiro dicionário a prestação. Foi professor do Lar São Domingos e ganhava um dinheiro extra revisando os textos de muitos poetas e escritores. Era uma pessoa muito querida, íntegra e verdadeira", destaca a artista Tânia.

Pelo telefone, a viúva Marina Baird Ferreira disse estar feliz em doar parte do acervo de Aurélio Buarque para Alagoas, composto por fotos, livros, conferências, ensaios, dicionários, entre outros. Marina nasceu em Belém do Pará, o seu pai era do Amazonas e a sua mãe, de Minas Gerais. Ela, que passou mais de 40 anos casada com o mestre Aurélio, lembra que o seu amado esposo gostava muito das praias de Maceió. O período natalino, ele costumava passar no Rio de Janeiro, com Marina e os dois filhos; já o Ano Novo, em Alagoas, ao lado da mãe. "Aurélio amava Alagoas. O seu acervo está sendo reunido e está na hora de o público ter acesso à vida dele", diz Marina.

O secretário de Planejamento e Orçamento do Estado, Sérgio Moreira, teve o privilégio de receber, constantemente, o mestre na casa da sua mãe, Tânia Pedrosa. Ele recorda que Marina era o lado prático do mestre. "Marina colocava Aurélio nos eixos: cuidava da casa e da família e trabalhava junto a ele; era sua assistente. O mestre era uma figura divertida e adorava comer feijoada, que, na sua opinião, só era boa 'dormida'", conta Sérgio.

Na entrevista, Sérgio Moreira deixa claro que fala como cidadão alagoano, apesar de ser um dos articuladores para que o Memorial Aurélio Buarque de Holanda se torne uma realidade. "Acredito que as iniciativas do IHGAL e do TRT não divergem, mas somam; são louváveis porque valorizam a imagem de Aurélio. Alagoas é um Estado marcado pela exclusão social, com terríveis indicadores educacionais, por isso, ter um Memorial ou Biblioteca de Aurélio, no Estado, é muito mais que uma homenagem; é um investimento na cultura, na educação e na história da Língua Portuguesa. Estamos devendo ao mestre porque, até agora, apenas uma escola no Benedito Bentes recebeu o seu nome na época em que a atual reitora da Universidade Federal de Alagoas, Ana Dayse Dórea, era secretária municipal de Educação", diz Moreira.

Segundo ele, o Memorial Aurélio Buarque de Holanda é a incubadora de um projeto maior.

"Alagoas deve isso ao mestre: um projeto que envolva as secretarias de Cultura e de Educação e o Ministério da Cultura porque Aurélio é a maior marca da Língua Portuguesa. A herança de Aurélio é muito mais que material, tem um potencial infinito".

O secretário de Estado da Cultura, Osvaldo Viégas, diz estar atento aos dois projetos sobre o mestre Aurélio e considera as iniciativas das instituições um passo importante para Alagoas. "As duas instituições têm credibilidade e já provaram que são bons gestores da memória alagoana e que estão aptas a receber o acervo de Aurélio Buarque de Holanda. A Secretaria de Cultura será uma parceira dos projetos", reforça Viégas.

Muitos alagoanos não têm conhecimento da naturalidade do mestre, mas os que sabem torcem para que os projetos envolvendo o conterrâneo Aurélio migrem do papel para a realidade. Como conta Tânia Pedrosa. "Ele era uma pessoa atenta. Quando eu recitava Cecília Meireles: 'Eu canto porque o instante existe/e a minha vida está completa./Não sou alegre nem sou triste: sou poeta...', ele corrigia qualquer erro. Aurélio tinha as palavras na alma".
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