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Homenagem

Amizade arretada

Dêvis Portela de Melo
Dêvis Portela de Melo
Não vou fazer diferente. Vou para o barzinho onde nos encontrávamos, pedir nossa cerveja bem gelada, sem esquecer do tira-gosto e do caldinho de camarão. A diferença vai estar em ele não estar. Escrevi certa feita, aqui mesmo, que nossa amizade era arretada. Nascida temporã, já nos estertores de nossas vidas, ela continuava sempre viçosa como a Viçosa que ele tanto adorava. Não convivi com o Dêvis Portela de Melo jornalista que foi editor da Gazeta de Alagoas, nem com o secretário de Estado de vários governos, nem com o Procurador de Justiça. Já os tinha deixado para trás, há muito. Convivi com o intelectual, devorador de livros que até permutávamos e de onde nasciam comentários pertinentes. Convivi com o fazendeiro pecuarista, apaixonado por suas terras e seu povo, quando, todas as quintas e sextas, as visitava para matar as saudades. Em viagem, passava-nos esse sentimento por não poder estar lá. Convivi com o marido apaixonado por sua Francisca e seus filhos e netos. Convivi com o cronista que insisti para não parar de escrever. Com a edição de seu livro “Pra não dizer que passei em branco” em 2009, uma coletânea de crônicas escritas nos anos setenta, teci comentários, ressalvando que, apesar de mais de trinta anos passados, eram verdadeiramente atuais. Em uma, parece estar falando de nossa política contemporânea. Em “Corrupção tem história” é peremptório quando diz: “A corrupção continua em voga. Corrompe-se, furta-se, praticam-se negociatas. O patrimônio comum é sistematicamente dilapidado em benefício de poucos”. E outras mais, fantásticas do mesmo jeito. Convivi com um cara totalmente avesso às tecnologias modernas. Seu telefone era para ligar ou receber ligações. Essa peculiaridade motivou-me escrever um outro artigo, “Meu amigo Pancrácio” onde não cito seu nome, mas o comparo com uma personagem criada por Roberto Pompeu de Toledo em um de seus textos. Fui amigo e gozei da amizade de um cara arretado, pois sabia regar essa amizade com serenidade, mas, às vezes, até com energia, assim o momento o exigisse. Vou pedir a cerveja e o tira-gosto, mas vou sentir sua falta.

José Maurício Brêda
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